Culturas nacionais: um olhar pós-moderno

Resumo

O artigo aborda os principais pressupostos por meio dos quais o pensamento da modernidade percebe e interpreta as culturas nacionais. Compara-os com a forma como a visão posmoderna  vê e procura entender tais culturas. Conclui que as visões moderna e pós-moderna não se excluem mutuamente, mas devem ser vistas como complementares. Tais considerações são extensíveis às culturas organizacionais.

Palavras-chave: cultura nacional, cultura organizacional, modernidade, posmodernidade, território, valores.

Abstract

As culturas nacionais têm sido estudadas predominantemente por meio da lente da modernidade.  A proposta desta breve reflexão é trazer o olhar da posmodernidade como complemento para compreendê-las de modo que outros elementos de seu interior possam ser destacados, e para que  a complexidade a elas inerente possa ser estudada com mais profundidade.

Cultura em desconstrução

A visão moderna de culturas nacionais está calcada em três pressupostos fundamentais: 1. A ideia de homogeneidade (as culturas são todos coesos que podem ser comparados). 2 . A noção de essência permanente (as culturas têm uma identidade fixa). 3. O pressuposto de culturas como territórios geográficos (elas são definidas por fronteiras geográficas). A visão posmoderna questiona esses pressupostos e propõe uma forma diferente e complementar de compreendê-las. Essa forma será debatida a seguir, a partir da desconstrução dos pressupostos acima citados.

Primeiro, a visão moderna tem abordado as culturas nacionais como elementos coesos, uniformes e homogêneos. Ela traduz a visão tradicional e gerencialista sobre o tema, que ressalta como as culturas são constituídas por valores, comportamentos e artefatos compartilhados pelo coletivo e disseminados como a maneira correta de pensar, sentir e agir (Schein, 1992). Essa visão tem como elementos centrais a consistência cultural (ideológica, de ação e simbólica) e o consenso sobre como que a cultura é e se manifesta.

O olhar posmoderno, no entanto, permite que as culturas sejam vistas com um todo heterogêneo, e por isso contrapõe a ideia de coesão, uniformização e homogeneidade, o que remete a uma visão de cultura que abriga misturas, contradições, diversidade e ambiguidade. Alguns estudiosos chegam a defender a ideia de que formas culturais puras não existem, pois as culturas seriam “todas envolvidas entre si”, heterogêneas e híbridas (Hall, 2006).

Segundo, a visão moderna de cultura parte do pressuposto de que elas têm uma essência e uma identidade mais ou menos permanentes, por meio das quais podem ser facilmente descritas e identificadas. Tal identidade seria algo relativamente fixo e traduziria a essência da nação. Fundamentados nessa concepção de cultura e identidade, diversos esquemas conceituais e de referência foram criados para a compreensão e comparação cultural (Hofstede, 2001 e House et al, 2004). Grande parte deles foram criados a partir de uma visão dicotômica de cultura. Por exemplo, culturas individualistas versus coletivistas, orientadas para pessoas versus voltadas para o trabalho, orientadas para valores femininos versus dirigidas para valores masculinos.

A visão posmoderna de identidade (individual e coletiva) está calcada nas noções de diferenciação, relação e formação. As identidades se formam a partir de movimentos de diferenciação entre o sujeito (ou o coletivo) e o outro(s), desenvolvem-se nas relações do sujeito (ou do coletivo) com seu contexto (o outro é necessário para a formação da identidade) e, por esse motivo, estão em constante formação. As identidades culturais que o olhar posmoderno permite formar são fluidas e dinâmicas, principalmente em função da interrelação das culturas umas com as outras – como decorrência dos processos de globalização, por exemplo (Ozkazanc-Pan, 2009).

Terceiro, na visão moderna a natureza das culturas é algo essencialmente territorial. Deriva de um processo de aprendizagem geralmente localizado, e remete à ideia de cultura no sentido de sociedade ou grupo. Essa visão traduz um olhar mais interno e de separatividade, um olhar de “dentro para fora”. Por outro lado, o olhar da posmodernidade permite compreender as culturas como um software humano geral, um processo de aprendizagem “translocal” que envolve um sentido global de território. Seria uma visão de fronteiras porosas mais facilmente interpenetráveis de fora para dentro (Hall, 2006).

O paradoxo nas culturas

As culturas nacionais são estudadas, na maioria das vezes, por meio de modelos amplamente conhecidos como o de Hofstede (2001). Tais estudos partem do pressuposto de que culturas são todos coesos e uniformes compartilhados por todos os seus membros. Essa é a visão comparativa, essencialista, estática e determinista de cultura – a visão moderna.  No entanto, como indicam muitos estudos, hoje esse modo de ver parece não ser o mais apropriado ou exclusivo para a compreensão das culturas e os encontros culturais contemporâneos.

O olhar posmoderno aplicado às culturas promove uma visão dialógica e ganha espaço nas discussões mais recentes sobre o tema. Concebe cultura como algo fluido, heterogêneo e elástico, com foco nas ambiguidades, paradoxos e contradições e, portanto, algo apolar e dinâmico (Soderberg e Holden, 2002; Fang, 2006).

O quadro abaixo sistematiza essas duas visões a partir de alguns atributos distintivos.

 

 

Fonte: a Autora, com base em Soderberg e Holden (2002) e Fang (2006).

A visão dialógica dos encontros culturais e da própria cultura reforça os seguintes aspectos; Primeiro, as culturas nacionais contêm diversidade e multiplicidade de subculturas em seu interior e não são exclusivamente entidades coesas e bem delimitadas. Segundo, as ambigüidades, os paradoxos e as dicotomias são inerentes às culturas e devem ser aceitos, examinados e compreendidos. Terceiro, os encontros entre culturas não resultam somente em conflitos, mas também numa grande diversidade de formas muitas vezes antagônicas, mas complementares. Quarto, as culturas nacionais devem ser entendidas como algo fluido, em constante transformação. Quinto, as culturas não têm uma essência única e permanente, mas sim um conjunto de valores constantemente renegociados e recriados.

Grande parte dos estudos sobre culturas nacionais (e organizacionais) utilizam-se da visão moderna Adotam uma postura bipolar: cultura é uma coisa ou outra (culturas femininas ou masculinas; individualistas ou coletivistas; orientadas a pessoas ou processos). Esse fato evidencia a tendência a uma visão de mundo dualista e excludente.

A concepção posmoderna e dialógica permite entender que as culturas podem conter dualidades que convivem e os polos não são mutuamente excludentes. As culturas podem ser ao mesmo tempo orientadas para valores femininos e masculinos; para pessoas e processos; e podem valorizar simultaneamente  o conflito e o consenso. Isso significa que elas podem conter ambiguidades e paradoxos e que estes fazem parte de sua natureza.

A visão moderna e gerencialista de cultura e dos encontros culturais é válida. Foi e continua sendo largamente utilizada para análise e compreensão das culturas, mas nos dias atuais parece ser insuficiente para explicá-las e compreendê-las. Vem sendo gradualmente complementada pela visão dialógica e paradoxal, que dá mais abertura e vazão à compreensão da complexidade das culturas e dos encontros culturais contemporâneos.

 

REFERÊNCIAS

FANG, T., 2006. “From ‘onion’ to ‘ocean’: paradox and change in national cultures. International Studies of Management & Organization v. 35, n.4, p.71-90.

HALL, S.A., 2006. Identidade cultural na posmodernidade. Rio De Janeiro: DP&A.

HOFSTEDE, G., 2001. Culture’s consequences. comparing values, behaviors, institutions, and organizations across nations. Thousand Oaks, California: Sage.

HOUSE, R. J.; Hanges, P. J.; Javidan, M.; Dorfman, P. W.; Gupta, V., 2004. Culture, leadership, and organizations – The Globe Study Of 62 Societies. London, Sage Publications.

OZKAZANC-OZKAZANC-PAN, B., 2009. Globalization and identity formation: a postcolonial analysis of the international entrepreneur. University of Massachusetts – Amherst Scholarworks@Umass Amherst, Dissertation.

SCHEIN, E. H., 1992. Organizational Culture And Leadership. San Francisco, Jossey-Bass.

SODERBERG, A.M.; Holden, N, 2002. “Rethinking cross cultural management in a globalizing business world”. International Journal of Cross Cultural Management, v. 2, n.1, p. 103–121, 2002.

*REBECA CHU.  Professora dos MBAs da BSP-Business School São Paulo, mestre e doutoranda pela Fundação Getúlio Vargas. Pesquisadora e Consultora nos temas do Comportamento Organizacional e autora do livro “Modelo Contemporâneo da Gestão à Brasileira”.

Email: rebeca.chu@prof.bsp.edu.br

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