Resumo
A humanidade tem presenciado neste início do século XXI uma intensificação no processo de alteração do clima. Os impactos provocados pelas alterações climáticas deixaram de ser apenas previsões e já são sentidos em diversos países. Este artigo apresenta um breve resumo de como a implantação de um modelo econômico mais cooperativo e preocupado com o meio ambiente pode contribuir para mitigar os impactos causados pelas alterações climáticas.
Palavras chave: Ecoeconomia Tecnológica Cooperativa, Economia ambiental, Desenvolvimento sustentável, Cooperação Econômica, Impactos Ambientais.
Abstract
Mankind has seen in the beginning of this century an intensification in the process of climate changes. The impacts caused by climate changes are no longer just predictions and are already being felt in many countries. This article presents a brief summary of how the implementation of an economic model that is cooperative and concerned with the environment can help to mitigate the impacts of climate change.
Keywords: Cooperative economical technology, environmental economics, sustainable development, economic, environmental impacts.
Na última década a humanidade conquistou diversos avanços científicos, políticos, econômicos e enfrentou com razoável sucesso uma das suas piores crises financeiras globais. Infelizmente, porém, o final da última década e início da atual também foram marcados por acontecimentos climáticos e sísmicos que resultaram em tragédias repletas de perdas de vidas e com enormes prejuízos para as economias de diversos países em todos os continentes. Países como Estados Unidos da América, Haiti, Chile, Austrália, Brasil e muitos outros foram atingidos dramaticamente. Pessoas, riquezas e cidades foram tragadas por furacões, terremotos, chuvas e desmoronamentos, em poucas horas e às vezes em até mesmo poucos segundos.
O fator humano não tem preço e não existe a possibilidade de mensurar com exatidão o imenso sofrimento dos familiares e amigos que tiveram entes queridos perdidos, ou mesmo seriamente feridos nessas tragédias coletivas. No campo emocional apenas podemos imaginar as suas dores e nos solidarizar com os nossos sentimentos e orações. A economia pode ser reconstruída com investimentos. Pontes, estradas e edificações podem ser reerguidas, mas os estragos feitos no coração e na alma necessitam, na maioria das vezes, de muito tempo e não somente de recursos financeiros para ser cicatrizados.
Felizmente, nos últimos tempos, em casos ocorridos no Brasil e países como o Haiti e Chile, a comunidade nacional e a internacional têm se mobilizado em ações de solidariedade nunca antes vistas. Entretanto, embora essas ações sejam de suma importância, apenas minimizam os sofrimentos, mas não os extinguem. Para todas as doenças ou tragédias sempre a melhor política é a prevenção. No cômputo total dos custos, as ações preventivas são as que menos demandam recursos financeiros e as que mais podem evitar muitas perdas de vidas e imensuráveis sofrimentos.
Prever com exatidão terremotos e tsunamis ainda não está ao alcance da ciência. Porém, ela já sabe que o século XXI será marcado por eventos climáticos cada vez mais extremos, uma vez que as alterações climáticas decorrentes das alterações no meio ambiente se intensificam a cada ano. Há pelo menos duas décadas, diversos institutos de pesquisas e instituições vêm estudando e alertando sobre as consequências do processo de aquecimento global. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) (The Intergovernmental Panel, fundado em 1988, conjuntamente pela World Meteorological Organization (WMO) e pelo United Nations Environment Programme (UNEP), é um dos mais importantes organismos internacionais dedicados a esses estudos. São atualmente compostos por delegações de 130 governos, com o intuito de gerar avaliações e análises regulares sobre as alterações climáticas, suas causas e consequências. Em junho de 2008, o IPCC publicou o IPCC Technical Paper VI – Climate Change And Water, que aborda diversos tópicos. Um deles refere-se aos impactos que a elevação do nível dos mares, gerada pelo aquecimento global, poderão causar nas áreas costeiras. Outro tema é a disponibilidade de água doce. Esse documento também apresenta questões relacionadas à vulnerabilidade das populações e suas respectivas atividades econômicas em relação às alterações climáticas e aos seus impactos na disponibilidade de água.
As constatações em relação às alterações climáticas, bem como as previsões e possíveis consequências são muito preocupantes. Algumas das principais são:
- O aquecimento global observado nas várias últimas décadas está relacionado às modificações no ciclo hidrológico: aumento do conteúdo de vapor d’água atmosférico, modificação nos sistemas meteorológicos de precipitação, aumento da intensidade de precipitações extremas, neves reduzidas, modificações no solo, entre outras.
- As simulações do clima para o século XXI projetam significativas alterações da flora e da disponibilidade de água doce nas áreas tropicais e subtropicais do planeta.
- Espera-se a diminuição da distribuição de água fornecida pelas geleiras e coberturas de neve no século XXI.
- O aumento esperado da temperatura da água, e o aumento de inundações e secas, afetarão a qualidade da água disponível e potencializarão os efeitos nocivos da poluição.
- As modificações em quantidade e na qualidade da água, devido às alterações climáticas, afetarão a disponibilidade alimentar, a estabilidade, o acesso e a utilização da água.
- As alterações climáticas afetarão as funções e a infra-estrutura relativa à água: represas, usinas hidrelétricas, diques de proteção, sistemas de drenagem, sistemas de irrigação e assim por diante.
- Os impactos políticos, sociais e econômicos na agricultura e na indústria serão significativos.
Figura 1 – Fotografias do glacial Chacaltaya na Bolívia. Fonte: Climate Change And Water. Technical Paper of Intergovernamental Panel on Climate Change – IPCC (2008).
A figura 1 mostra fotografias tiradas em quatro diferentes datas do século XX do glacial Chacaltaya, na Bolívia. Elas permitem a constatação da diminuição da cobertura de gelo e neve ocorrida ao longo de quase 70 anos no século XX. Observe-se que já é consenso científico, e também político-mundial, que a atividade humana é a principal responsável pelas alterações climáticas atualmente em curso na Terra. O que algumas nações ou mesmo institutos ainda discutem é, principalmente, sua magnitude e velocidade. Entretanto, mesmo apostando na ocorrência de transformações em cenário otimista, os impactos das alterações climáticas nas sociedades humanas serão enormes.
Uma vez que o clima, a água doce disponível, os sistemas biofísicos e socioeconômicos são interligados em uma complexa escala global, todas as nações são co-responsáveis e interdependentes pelas ações e impactos provocados por suas atividades econômicas. Assim sendo, não resta dúvida de que as ações compensadoras e corretivas nos processos produtivos devem ser pesquisadas, desenvolvidas e implementadas o mais breve possível.
Para garantir a própria sobrevivência, a humanidade deve promover significativas alterações em seus processos produtivos e no seu modo de vida se desejar reverter a tendência do aumento da concentração de gases causadores do efeito estufa. Estes são os principais agentes causadores da aceleração do aquecimento global, que começou a partir da Primeira Revolução Industrial. Contudo, mesmo que haja vontade política, necessita-se de tempo para que os investimentos em pesquisa se materializem em processos menos poluidores. Necessita-se também de tempo para reverter os desmatamentos e promover o reflorestamento.
Assim, mesmo se agirmos de forma responsável em relação ao clima e ao planeta, pode-se esperar que nas próximas décadas os períodos e as intensidades das chuvas serão cada vez maiores. No passado recente, as grandes tempestades ocorriam a longos intervalos de tempo. No século XXI, devido ao motor atmosférico estar turbinado pelo aquecimento global, as grandes tempestades vêm se tornando muito mais frequentes. Pode-se também esperar que os períodos de estiagem, as ondas de calor e as nevascas sejam cada vez maiores e mais frequentes. Em relação aos terremotos e tsunamis, previsões mais exatas dependem da ampliação e implantação de uma rede de mundial de monitoramento. Mas é certo que esses fenômenos continuarão ocorrendo e afetarão cada vez mais pessoas, uma vez que a humanidade continuará a expandir sua ocupação do planeta.
Uma das definições mais aceitas pela comunidade científica sobre desenvolvimento sustentável é “atender às necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das gerações futuras”. Conforme demonstrado em Pereira (2009), os fundamentos da proposta de um novo modelo econômico mundial denominado “Ecoeconomia Tecnológica Cooperativa” buscam auxiliar a consecução do desenvolvimento sustentável. Para tanto, a humanidade deve concentrar seus esforços em três áreas vitais: meio ambiente, prosperidade econômica e recursos humanos. Não é nem será possível atingir um bom estágio de desenvolvimento sustentável se apenas uma dessas três áreas não for atendida.
Para tanto, deve-se mais do que nunca planejar, atuar e fiscalizar as ações de todos os setores da economia. O objetivo é, além de gerar prosperidade econômica, mitigar os impactos ambientais e estender a toda a humanidade os benefícios prosperidade econômica.
Uma das atividades que deve ser revista, melhorada e regulamentada é a ocupação do solo e o desenvolvimento urbano. Se por um lado as manifestações climáticas se tornam cada vez mais intensas, de outra parte a humanidade edifica suas cidades em áreas cada vez mais impróprias. Juntos, esses dois fatores são tragédias anunciadas. Fornecem a infeliz certeza de que cada vez mais os noticiários falarão periodicamente de perdas de vidas e dos prejuízos de cidades soterradas por deslizamentos ou alagadas.
As nações necessitam aprimorar seus códigos florestais, no sentido de reverter o desmatamento e evitar que casas e cidades sejam erguidas em encostas, áreas de mananciais e lugares em que haja perigo de desmoronamento. Os rios devem ter suas margens preservadas, com no mínimo dois objetivos: a qualidade das águas e o controle das enchentes.
Os planos diretores das cidades devem respeitar áreas que servem como grandes amortecedores climáticos, tanto para o conforto térmico como para a retenção e regulação dos fluxos das águas. Os solos urbanos não podem ser continuamente impermeabilizados sem que as consequências dos alagamentos não sejam intensificadas. As áreas urbanas devem ter mais parques públicos, mais sistemas de contenção das águas. As edificações privadas devem ter seus sistemas de captação e armazenagem de águas pluviais para reuso.
No atual modelo de desenvolvimento urbano, as grandes cidades passam por um processo de verticalização, no qual quarteirões inteiros de casas são demolidos para que em seu lugar surjam grandes edifícios. É evidente que a concentração humana sobrecarrega os serviços locais e impacta o meio ambiente, criando as chamadas ilhas de calor. Assim, é também necessário que uma parte do terreno seja cedida ao poder público para o alargamento das ruas e calçadas. Por outro lado, os novos edifícios devem ser construídos segundo os critérios da chamada “construção verde”.
Em suma, a humanidade deve planejar e aplicar os avanços científicos para melhor usufruir das áreas florestais, rurais e urbanas. No atual modelo, tanto a população pobre quanto as classes média e alta não vêm ocupando o espaço da melhor forma possível. Em conseqüência, todas as classes sociais sofrem com os desastres ambientais. Mesmo que a sociedade comece a reverter esse processo, é ainda necessário que haja um planejamento logístico nos níveis municipais, estaduais e nacionais para que se possa lidar com as tragédias climáticas ou sísmicas que fatalmente ocorrerão. Tanto o setor público quanto as empresas do setor privado devem preparar suas infra-estruturas logísticas, para que possam operar com maiores graus de solicitação no sentido de atender, ainda que parcialmente, às necessidades humanas durante os períodos de crises climáticas. Algumas perguntas necessitam de respostas urgentes:
- Caso haja necessidade da evacuação em massa de pessoas de uma determinada região em função de alagamentos, ou indícios de erupção vulcânica, ou mesmo de um tsunami, os países estão preparados?
- Na ocorrência de uma estiagem prolongada em determinada região, o que os serviços públicos e as empresas farão para garantir o suprimento de água, alimentos, remédios e matérias-primas, de modo a manter a população saudável e a economia operando de forma razoável?
- Os sistemas de reservatórios e de abastecimento de água estão preparados para as alterações dos ciclos hidrológicos e dos índices pluviométricos?
Estas são algumas das questões que os profissionais e gestores públicos e privados terão como desafios nas próximas décadas. É claro que não existem soluções simples ou baratas. O aumento da infra-estrutura logística e a reorganização das cidades e economias demandam vontade política, investimentos e principalmente tempo. O ecossistema, o clima e as sociedades são organismos vivos, complexos e interdependentes. Se as decisões corretas não forem tomadas ainda nesta década, a humanidade sofrerá muito. Pode não ser fácil alterar o atual rumo das coisas. Entretanto, se implementarmos um modelo econômico mais cooperativo e não tão competitivo, as soluções necessárias para a melhoria da qualidade de vida serão mais viáveis.
Referências
BATES, B.C.; Kundzewicz, Z. W.; WU, Palutikof, J. P., Eds., 2008. “Climate change and water. technical paper of the intergovernmental panel on climate change, IPCC Secretariat, Geneva.
CHASE, R.B.; Aquilano, N.J.; Jacobs, F.R., 2001. Operations management for competitive advantage. Nova York: McGraw-Hill.
GOLDEMBERG, J.; Villanueva, L.D., 2003. Energia, meio ambiente & desenvolvimento. São Paulo: Edusp.
OGATA, K., 2003. Engenharia de controle moderno. São Paulo: Pearson Education do Brasil.
PEREIRA, S. L., 2009. Ecoeconomia tecnológica cooperativa: uma proposta conceitual: a ciência e tecnologia da automação como ferramentas de inclusão social e de suporte ao desenvolvimento sustentável.Tese (Livre-Docência). Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo.
RITZMAN, L.P.; Krajewski, L.J., 2004. Administração da produção e operações. São Paulo: Pearson Education do Brasil.
SLACK, N.; Chambers, S.; Johnston, R., 2010. Administração da produção.São Paulo: Atlas.
SOUZA, J., 2006. Max Weber – A gênese do capitalismo moderno. São Paulo: Ática.
SOUZA, M.; Pereira, S. L.; Fontana, C. F.; Dias. E. M., 2008. “Information technology as a management tool in automation processes of sanitation facilities”. In: Communications & Information Technology. NAUN Conferences, 2008, Atenas. Anais NAUN Conferences, p. 201-206.
SOUZA, M.; Pereira, S. L.; Fontana, C. F.; Dias, E. M., 2008. Integrated management and optimization of the sanitation cycle using intelligent automation systems and communication networks. WSEAS TRANSACTIONS on SYSTEMS and CONTROL, v. 3, p. 321-331.
STEINER, R., 2006. Economia viva: o mundo como organismo econômico único. São Paulo: Antroposófica.
*SERGIO LUIZ PEREIRA. Livre-Docente pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Professor dos programas de MBA da BSP-Business School São Paulo. Professor da Universidade de São Paulo (USP). Consultor em Eco-economia e Automação.
E-mail: sergio.pereira@prof.bsp.edu.br
E-mail: sergioluizpe@uol.com.br



