Eco-Economia Tecnológica Cooperativa

Resumo

A humanidade vive, neste início do século 21, uma época sem precedentes na sua história. As dificuldades relativas à produção de alimentos, energia e abastecimento de água crescem a cada dia, e somam-se aos problemas oriundos das alterações no meio ambiente e suas consequências. Este artigo apresenta e fundamenta uma proposta de aplicação da ciência e tecnologia da automação como ferramentas de viabilização para que a humanidade atinja uma nova etapa de desenvolvimento econômico e produtivo. Esta seria denominada “Eco-economia Tecnológica Cooperativa”, e seus principais objetivos são a inclusão social e a promoção do desenvolvimento sustentável.

Palavras-chave: Eco-economia, Tecnológica Cooperativa, economia ambiental, Desenvolvimento sustentável, Inclusão social, otimização de processos.

Abtract

Mankind lives, in the beginning of 21st century, at an unprecedented time in its history. Difficulties relating to food production, energy and water supplies are increasing daily, and all this is added to the problems caused by environmental changes and their consequences. This paper presents and justifies a proposed application of science, technology, and automation tools as a way of enabling mankind to reach a new stage of economic and productive development. This would be called Cooperative Technological Eco-economics, and its main objectives are the promotion of social inclusion and sustainable development.

Keywords: Cooperative Technological Eco-economics, environmental economics, sustainable development, social inclusion, process optimization.

Introdução

Existem diversas evidências científicas de que o Homo sapiens surgiu na África Oriental há cerca de 500.000 anos. Desde então o ser humano vem desenvolvendo diversos atributos e habilidades que incluem a capacidade de produzir ferramentas que o auxiliam a sobreviver. E, até onde se sabe ele é, neste planeta, o ser que mais utiliza e desenvolve ferramentas.

O desenvolvimento de ferramentas depende dos desenvolvimentos científico e tecnológico. Classicamente, a ciência pode ser definida como um conjunto organizado de conhecimentos relativos ao universo, que abrange fenômenos naturais, ambientais e comportamentais. Assim sendo, dentro desse conceito o trabalho puramente científico é destituído de objetivos práticos, e a sua motivação consiste em ampliar o conhecimento sobre o universo. Em outras palavras, a ciência não cria diretamente produtos ou serviços, mas desenvolve modelos e ferramentas conceituais de análise sobre o universo ou sobre qualquer de seus componentes, partes ou entidades.

Uma das definições clássicas para a tecnologia é que ela é um conjunto ordenado de conhecimentos científicos, técnicos, empíricos e intuitivos que são empregados no desenvolvimento, produção, comercialização e utilização de bens ou serviços. Conforme sua finalidade, a tecnologia recebe qualificativos como tecnologia de processo, tecnologia de produto, de comercialização, de operação e assim por diante. Devido à rapidez das mudanças promovidas pela humanidade em todos os setores produtivos constata-se que, cada vez mais, a fronteira conceitual e prática entre a ciência e a tecnologia torna-se mal delimitada. Também é difícil afirmar qual delas nasceu primeiro. Entretanto, sabe-se que a ciência promove o desenvolvimento tecnológico e a tecnologia empurra o desenvolvimento científico. A tecnologia está intimamente ligada à engenharia, que por sua vez também pode ser definida como a arte de transformar idéias em produtos e serviços.

O nível do desenvolvimento atual da ciência da tecnologia e da engenharia tem permitido que a humanidade interfira significativamente no meio ambiente do planeta Terra, no seu destino e no destino das demais espécies. Entretanto, a sua grande habilidade em desenvolver e empregar ferramentas e desenvolver processos produtivos, pode ser o motivo do seu bemestar e também o de sua própria degradação ou até mesmo extinção. São as decisões sobre como elaborar, produzir e partilhar os produtos e serviços que conduzem ou não a humanidade em direção a um desenvolvimento sustentável.

Processos produtivos e os impactos de sustentabilidade

Existem diversas definições acadêmicas empregadas pelos setores produtivos da sociedade para o termo” processo”. Segundo Ritzman e Krajewski (2004:3), “um processo é uma atividade que parte de um ou mais insumos, transforma-os e lhes agrega valor, criando um ou mais produtos (ou serviços) para os clientes”. Segundo o dicionário Aurélio (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª ed. 1986: 1395), o termo “processo” é um “substantivo masculino que significa: ato de proceder, de ir por diante; sucessão de estados ou de mudanças; modo por que se realiza ou executa uma coisa; método, técnica”. De acordo com Ogata (2003:2), “processo é uma operação ou desenvolvimento natural, que evolui progressivamente, caracterizado por uma série de mudanças graduais que se sucedem, umas em relação às outras, de um modo relativamente estável e objetivando um particular resultado ou meta; ou uma operação artificial ou voluntária, que se constitui por uma série de ações controladas ou movimentos sistematicamente dirigidos, objetivando um particular resultado ou meta. Processo é toda operação a ser controlada”.

Para melhor diferenciar os processos desenvolvidos pela atividade humana dos eventos, fenômenos ou processos naturais, este artigo emprega o termo composto “processo produtivo” para designar todo conjunto de atividades que, se efetuadas devido à vontade humana, forneçam um produto ou serviço como variável de saída, quando alimentado por algumas macro-variáveis de entrada inerentes e fundamentais ao próprio processo. Os processos produtivos são compostos de um ou diversos sub-processos. Todo processo produtivo impacta e é impactado pela sociedade. Assim sendo, todo processo produtivo pode ser situado em um determinado setor da atividade econômica.

A figura 1 ilustra o modelo relacional entre as macro-variáveis de entradas e saídas de um processo produtivo genérico. Observa-se que esse modelo expressa a dependência hierárquica entre o meio ambiente, a sociedade humana, a atividade econômica e os diversos setores da economia, representados pelas macro-variáveis de sustentabilidade. Também ilustra, de forma genérica conceitual, os efeitos de sustentabilidade provocados pelas saídas e operações de um processo produtivo no meio ambiente, na sociedade humana e na atividade econômica.

Figura 1 - Diagrama de blocos ilustrativo de um processo produtivo genérico.

Figura 1 - Diagrama de blocos ilustrativo de um processo produtivo genérico.

Conforme ilustrado na figura 1, qualquer processo produtivo tem, como resultado direto da sua operacionalização, um produto ou serviço realizado e produz, como subprodutos, lixo e sucata. Para ser operacionalizado, qualquer processo produtivo demanda seis categorias de macro-variáveis de entrada: energia, matérias-primas, recursos humanos, tecnologia, decisões e distúrbios.

A figura 1 também ilustra a estrutura de dependência entre o conjunto conceitual de atividades produtivas definido como atividade econômica, a sociedade humana e o meio ambiente. Conforme indicado nessa figura, qualquer atividade econômica só pode ocorrer no universo da sociedade humana. Assim, embora a figura 1 não as ilustre, existem diversas variáveis geográficas, ambientais, sociais, comportamentais, religiosas, culturais e políticas, que determinam a viabilidade ou não de um determinado processo.

Em resumo, a atividade econômica só pode existir em escala se houver uma sociedade humana que lhe dê suporte de existência e finalidade. Entretanto, embora alertados há muito tempo pela comunidade científica, somente nas últimas duas décadas é que governos e empresas começaram a tomar consciência de que não pode haver nenhuma sociedade humana sem que haja, também, um meio ambiente que a sustente e dê suporte à vida em sua totalidade.

Sem um meio ambiente propício não existe vida porque para existir os organismos vivos demandam, conforme a espécie, condições específicas e determinadas. Entretanto, até onde a ciência humana conhece, todos os organismos vivos necessitam, cada um a seu modo, de fontes de energia.

A demanda mundial por energia cresce de forma absoluta e também, proporcionalmente, por habitante. O consumo de água segue a mesma tendência. Assim, com o aumento populacional e o aumento proporcional das demandas individuais da maioria da população planetária, uma conclusão é inevitável: mantidos os atuais padrões e tendências de comportamento – e os atuais níveis tecnológicos na condução dos processos produtivos –, em breve os recursos do ambiente não terão condições de dar suporte à sociedade humana, à economia e, portanto, a toda cadeia produtiva.

No início do desenvolvimento humano, as macro-variáveis de sustentabilidade eram tão importantes quanto são nos dias atuais. Entretanto, o impacto gerado no meio ambiente pela existência e atividade humana era significativamente menor em épocas remotas do que atualmente. Segundo Goldemberg e Villanueva (2003), há um milhão de anos um ser humano consumia aproximadamente 2 mil kcal/dia. Estima-se que naquela época a população não ultrapassava 500.000 indivíduos. Atualmente, a população planetária ultrapassa a cifra dos 6 bilhões, e o consumo per capita nos países desenvolvidos está na ordem de 250 mil kcal/dia.

Ainda de acordo com os autores citados, o consumo energético per capita tem aumentado principalmente devido à expansão das atividades humanas, que partiram de sociedades nômades e coletoras até chegar aos dias atuais. As atividades relacionadas ao comércio, transporte, indústria, agricultura, lazer e, infelizmente, também as ligadas às guerras, totalizam aproximadamente 97% do consumo per capita de energia. Pesquisas constatam que o consumo energético também não está distribuído uniformemente entre os países, e comprovam a estreita ligação entre indicadores como PIB – Produto Interno Bruto, PNB – Produto Nacional Bruto -, IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – e o consumo médio de energia de cada país.

O perfil de consumo das diversas fontes primárias de energia muda em função do nível de desenvolvimento socioeconômico e também da localização geográfica dos países. Constata-se que a maioria dos países menos desenvolvidos, embora consumam menos energia, por outro lado empregam fontes energéticas mais poluidoras e menos eficientes. Portanto, todos os países, em maior ou menor grau, impactam o meio ambiente de diversas formas.

As mudanças no meio ambiente causadas pelas ações humanas são denominadas ações antropogênicas. Há aproximadamente cem anos, o consumo per capita de recursos minerais era de aproximadamente 2 toneladas por ano. Atualmente, a média de consumo por indivíduo está na ordem de 8 toneladas por ano. Estima-se que a sociedade humana, com mais de seis bilhões de pessoas, tornou-se uma força geológica que consome cerca de 48 milhões de toneladas e pode ser comparada, à ação dos vulcões, ventos, chuvas e marés, que em conjunto movimentam algo em torno dos 50 milhões de toneladas por ano.

Os desmatamentos, as alterações da topografia, as grandes barragens, o despejo constante de toda a sorte de poluentes e materiais nas bacias hidrográficas e nos mares também cresceram significativamente nos últimos cem anos. A ocupação desenfreada e desorganizada de regiões de mananciais é outro vetor de alteração da capacidade regenerativa e produtiva do planeta. Em 400 A.C., o filósofo Platão já lamentava a dizimação das florestas que um dia haviam coberto as montanhas da Grécia e haviam sido descritas, 100 anos antes, pelo poeta Homero. Durante as idades Média e Moderna as principais florestas do continente europeu foram praticamente consumidas. Os EUA e o continente asiático também tiveram um desmatamento significativo nos últimos trezentos anos. Desde o seu descobrimento, o Brasil perdeu mais de 90% da Mata Atlântica original e os atuais níveis de desmatamento da Amazônia ainda são elevadíssimos.

Atualmente, não há mais como negar a relação direta entre a temperatura média da Terra e o seu clima com os níveis de CO2 e demais gases causadores do efeito estufa. Também não há como ignorar a participação da espécie humana no aumento dos níveis desses gases. A Figura 2 ilustra as variações da temperatura média a partir da metade da primeira Revolução Industrial.

Figura 2 - Gráfico da temperatura média global e concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Fonte: Woods Hole Research Center.

Figura 2 - Gráfico da temperatura média global e concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Fonte: Woods Hole Research Center.

Os dados de diversas pesquisas divulgados pelos mais respeitados centros de pesquisa da comunidade científica são conclusivos. Mostram que os aumento populacional e das atividades humanas têm gerado impactos ambientais de toda ordem, o que aumenta significativamente a concentração dos chamados GHGs (Greenhouse gas, ou gases do efeito estufa).

Diversas publicações vêm alertando para os sinais do aumento global da temperatura e alguns dos seus reflexos no clima, derretimento das geleiras e outros efeitos. Estima-se que, mantidas as atuais tendências em relação aos níveis de emissão de dióxido de carbono (CO2) – um dos principais gases do efeito estufa – na atmosfera, e as atuais tendências de reflexos no clima planetário, por volta do ano de 2050 a calota de gelo polar ártica desaparecerá nos meses de verão.

O degelo de grandes massas poderá também contribuir para a quebra da linearidade e auto-regulação do sistema climático global. Os impactos de uma grande massa de água doce despejada nos oceanos provavelmente alterará as correntes marítimas e aumentará o nível dos oceanos. O degelo também poderá acelerar o processo de aquecimento. Na condição de gelo, a imensa massa de água retida nos pólos Norte e Sul reflete muito do calor recebido pela radiação solar. Entretanto, essa mesma massa de água quando passada ao estado líquido absorverá muito mais calor, o que fatalmente impactará o clima global.

Como as alterações no clima geram reflexos regionais e globais, todos os processos produtivos da sociedade humana são por elas afetados em maior ou menor escala. Uma determinada safra de vinhos se torna excepcional porque, entre outros fatores, em um dado ano houve uma combinação ideal de sol e chuva. Por outro lado, uma praga pode surgir de súbito e inviabilizar economicamente a indústria de sucos cítricos, ou mesmo a atividade pecuária de um país.

A desertificação, as secas e as enchentes geram impactos na economia mundial, que afetam até mesmo países distantes dos epicentros dessas calamidades. Assim, as macrovariáveis de sustentabilidade são cada vez mais reconhecidas, pela comunidade científica e pela sociedade, como determinantes não só do sucesso de um dado produto ou serviço, mas também da manutenção da própria existência da humanidade.

Macro-transformações tecnológicas da eco-economia tecnológica cooperativa

Conforme demonstrado neste artigo, os impactos ambientais produzidos pelos seres humanos atingiram atualmente uma escala tectônica que compromete a sobrevivência da humanidade. O aumento populacional e o desenvolvimento econômico pressionam o crescimento da demanda de recursos naturais em direção a uma escala não suportável pelo ecossistema planetário. O que compromete significativamente as condições das variáveis de sustentabilidade.

Assim, é urgente que a área científica e tecnológica desenvolva e possibilite a implementação de cinco ações básicas:

  • Combate ao desperdício por meio da educação,
  • Combate ao desperdício por meio de melhor gestão da infra-estrutura.
  • Desenvolvimento de processos produtivos mais eficientes.
  • Desenvolvimento de processos produtivos que gerem menos lixo, incluindo o uso de lixo e sucata como matérias-primas e matrizes energéticas.
  • Desenvolvimento de novas fontes de energia e energia limpa.

Combate ao desperdício por meio da educação

A educação formal e informal de uma sociedade é um processo dinâmico do qual participam diversos atores. Entre eles as instituições de ensino e pesquisa são essenciais, porém não únicas. Os meios de comunicação têm participação significativa na formação cultural de uma população. É claro que nem sempre a influência de parte dos meios de comunicação de massa é positiva. Mas é inegável que ela se torna tanto mais significativa quanto menor for o nível de escolaridade de uma população.

Portanto, a infra-estrutura dos meios de comunicação não deve ser desconsiderada no aprimoramento cultural: deve ser melhor aproveitada. A Internet, as novas ferramentas tecnológicas de educação a distância e chamada tecnologia da convergência digital, associadas à vontade política, podem permitir a criação, integração e formação de parcerias entre diversas instituições de ensino e pesquisa com setores governamentais e demais meios de comunicação de massa. Tudo isso compõe uma grande rede de educação a distância, cujo objetivo é contribuir para a formação de uma cultura de não-desperdício. Observe-se que essa mesma grande rede de educação a distância também pode ser empregada como um ator auxiliar no processo de capacitação, formação e reciclagem na educação formal e profissional.

Combate ao desperdício por meio de melhor gestão da infra-estrutura

Os países desenvolvidos têm uma razoável infra-estrutura, enquanto os países em desenvolvimento e os subdesenvolvidos ainda são carentes nesse quesito. Entretanto, a melhor gestão de qualquer infra-estrutura pode melhorar significativamente os índices do desperdício de energia e de bens produzidos, transportados, tratados ou armazenados.

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia da automação, voltado para a gestão e otimização dos recursos de infra-estrutura é uma das peças- chave neste macro-objetivo. Quando empregados isoladamente, sistemas de controle de semáforos inteligentes e integrados não resolvem os problemas de congestionamento das grandes cidades, mas contribuem muito para a melhoria do fluxo de veículos automotivos. A automação dos sistemas de supervisão e controle de uma infra-estrutura ferroviária pode permitir uma utilização mais eficiente e com menos acidentes. A automação do agro-negócio, do controle e armazenamento da produção é uma poderosa ferramenta para aumentar a produtividade e minimizar os desperdícios. É claro que deve existir também uma política nacional de investimentos na ampliação da infra-estrutura de transporte coletivo, tanto quanto na infraestrutura de transporte de cargas.

No entanto, seja com a infra-estrutura existente ou mesmo com sua ampliação, a automação é uma ferramenta fundamental para a melhoria da gestão. Com efeito, o sistema produtivo de um país é, na realidade, uma grande cadeia de suprimentos integrada à cadeia de suprimentos internacional da economia globalizada.

A água é a matéria-prima direta de praticamente todos os processos produtivos e constitui uma das principais variáveis de sustentabilidade. Atualmente há um grande desperdício de recursos hídricos, tanto no Brasil como em muitos países, devido a diversos problemas operacionais dos sistemas de captação, tratamento e distribuição. Deve-se lembrar, também, que a água é o principal vetor de transmissão de várias doenças infecciosas e que investimentos na melhoria de sistemas de abastecimento hídrico levam a uma grande redução da incidência dessas patologias. Pesquisas e esforços vêm sendo desenvolvidas por instituições e empresas, no sentido de desenvolver sistemas e tecnologias mis eficientes de automação para a captação, tratamento e distribuição de água.

O emprego da energia em instituições públicas e privadas pode ser significativamente melhorado, por meio de sistemas de controle e monitoração automáticos, o que permite diminuir a necessidade da expansão da infra-estrutura de geração, distribuição e transmissão de energia elétrica, ou mesmo de outras fontes como o gás natural.

Em resumo, os sistemas de gestão baseados na tecnologia de informação, integrados a sistemas de automação podem melhora muito a eficiência e a performance global da infraestrutura de um país.

Desenvolvimento de processos produtivos mais eficientes

A eficiência dos processos produtivos depende direta e estrategicamente da tecnologia. Máquinas como motores elétricos, reatores, turbinas, quando obsoletas ou mal controladas levam a baixos níveis de rendimento energético dos processos produtivos, baixos índices de aproveitamento das matérias-primas e, em consequência, tornam-nos mais poluidores. Conforme ilustrado na figura 1, qualquer processo produtivo demanda, além de energia, as demais variáveis de entrada e sustentabilidade. Assim, a melhoria de todos os aspectos dos processos produtivos é uma necessidade urgente da humanidade. Processos mais eficientes do ponto de vista energético geram menos impactos nas variáveis de sustentabilidade e são mais econômicos do ponto de vista financeiro.

Novamente, a ciência e a tecnologia da automação podem contribuir de forma efetiva para a melhoria da performance dos mais variados tipos de processos produtivos. O controle automático das variáveis controladas – e das variáveis de controle – permite um dispêndio menor de todas as variáveis de entrada e também menor emissão de poluentes, incluindo os gases causadores do efeito estufa. O desenvolvimento de máquinas mais eficientes é uma necessidade para que os processos produtivos possam demandar menos das variáveis de sustentabilidade.

Desenvolvimento de processos produtivos que produzam menos lixo, incluindo o emprego do lixo e sucata como matérias-primas e matrizes energéticas

Como os processos produtivos produzem lixo e sucata, os problemas ambientais crescem na proporção direta do crescimento da atividade econômica. A automação de processos bem efetuada minimiza as falhas de processo e, conseqüentemente, diminui a produção de lixo ou sucata. Uma vez que a automação permite aumentar as possibilidades da qualidade do processo, ela pode contribuir para romper o ciclo negativo de que o aumento da produção de produtos e serviços implica o aumento da produção de lixo e sucata.

Outro benefício possível da automatização e melhoria dos processos da indústria de reciclagem é o aumento da capacidade de transformação de lixo e sucata em matérias-primas para outros processos ou, mesmo em produtos acabados. A automação também pode auxiliar a logística da coleta, separação, destinação e eventual reaproveitamento do lixo industrial, doméstico e hospitalar. Dessa forma, pode contribuir significativamente para o enfrentamento desse grande desafio da geração atual e das futuras. A maioria dos aterros sanitários das grandes metrópoles está saturada. E, como infelizmente a produção per capita de lixo vem crescendo significativamente, é urgente que a humanidade dê um salto de qualidade nos processos de gestão, destinação, tratamento e reaproveitamento do lixo.

O lixo também pode ser usado como matriz energética. Uma das indústrias que mais o vêm utilizando como parte da matriz energética em seus fornos é a do cimento. Os avanços tecnológicos com os biodigestores e sistemas de aproveitamentos do gás metano oriundo dos aterros sanitários não resolverão por completo a problemática da necessidade de energia. Mas certamente contribuirão para o esforço coletivo do desenvolvimento sustentável.

Desenvolvimento de novas fontes de energia e energia limpa

Este é outro quesito fundamental para que a humanidade possa atender às suas necessidades sem comprometer a continuidade de suas condições de sobrevivência. O desenvolvimento de novas fontes de energia que priorizem as fontes de energia classificadas como limpas é vital. A automação de processos relacionados à produção, transmissão e distribuição de energia é parte integrante e indissociável do emprego de novas fontes energéticas.

O modelo operacional da Eco-economia Tecnológica Cooperativa

Em todas as cinco ações propostas para viabilizar as macrotransformações tecnológicas da Era da Eco-economia Tecnológica Cooperativa, estão presentes a ciência e a tecnologia da automação, bem como o permanente desenvolvimento científico em busca do desenvolvimento sustentável.

Os processos produtivos da Era da Eco-economia Tecnológica Cooperativa também geram lixo e sucata. Por isso, demandam as mesmas seis variáveis de entrada definidas na figura 1, bem como as variáveis de sustentabilidade. Conseqüentemente, todas estas também causam impactos ambientais. Entretanto, a demanda pelas seis variáveis de entrada – bem como o volume de lixo e sucata – tendem a ser proporcionalmente menor por processo produtivo. Isso deverá ocorrer porque nesse modelo econômico a sociedade em seu conjunto estará comprometida com o desenvolvimento sustentável.

O consumo per capita de energia também tende a ser menor com o passar do tempo. Isso ocorre porque, nessa proposta de modelo econômico são permanentes os investimentos no desenvolvimento de processos, máquinas e equipamentos energeticamente mais eficiente, assim como o investimento em educação e conscientização. Dessa forma, em vez de amplificar seus impactos negativos nas variáveis de sustentabilidade, o incremento na atividade econômica passará a contribuir para a diminuição dos efeitos negativos no meio ambiente.

A base do modelo aqui proposto é fundamentada nos mesmos dois pilares que, até o presente momento da história da humanidade, têm sido os promotores das grandes transformações no modelo econômico e produtivo. São eles: a) um novo modelo conceitual de gerir e de organizar a economia; b) um salto significativo no desenvolvimento científico e tecnológico.

No contexto deste artigo, a expressão “ política macro-estratégica do processo decisório” refere-se a um padrão global de decisões e ações que; a) posicionam a organização e a sociedade em seu meio ambiente ; b) têm por objetivo fazê-la atingir seus objetivos de longo prazo. O principal deles é o próprio desenvolvimento sustentável.

Na condição de componente desse conjunto, o modelo denominado “política macro estratégica do processo decisório” tem um papel fundamental. Isso se deve ao fato de ser ele que estabelece um padrão de tomada de decisões. Funciona também como um elemento conciliador dos eventuais interesses conflitantes entre os diversos setores da sociedade. Isso não significa afirmar que o componente “política macro-estratégica do processo decisório” deva realizar as funções do sistema judiciário nos mais diversos tipos de conflitos oriundos dos relacionamentos humanos, políticos ou econômicos. Não é essa a função proposta, mesmo porque esse componente não é uma instituição formal e sim um modelo conceitual, cultural e econômico, assim como diversos outros modelos econômicos já existentes. Um exemplo é o denominado de neoliberal.

No modelo aqui proposto, os resultados econômicos obtidos com a comercialização dos produtos e serviços são, como no modelo econômico atual, distribuídos aos diversos setores da sociedade. Entretanto, a principal diferença é que a “política macro-estratégica do processo decisório” tem como função nortear ações e investimentos. O objetivo é que toda sociedade receba os benefícios e, simultaneamente, que haja um permanente investimento em pesquisa para a melhoria da eficiência dos processos produtivos. Nenhum modelo econômico pode ser sustentável sem gerar benefícios para os seres humanos.

Dessa maneira, nesta proposta os resultados econômicos obtidos pela comercialização dos produtos e dos serviços têm destinos e objetivos específicos. Quando atingidos e combinados de forma integrada, eles garantem o desenvolvimento contínuo da sociedade. O objetivo da erradicação da miséria econômica deve existir em toda política que pretenda contribuir para o desenvolvimento sustentável.

O fluxo de informações e decisões permeia toda a cadeia produtiva de forma integrada. O objetivo é que todos os setores sejam contemplados e permanentemente melhorados.

Dessa forma, o lixo e sucata tornam-se matérias-primas e componentes da matriz energética de diversos outros processos. Os investimentos permanentes em recursos humanos podem, realmente, efetivar o desenvolvimento de novas tecnologias de processos e energia limpa. Afinal, são os seres humanos quem desenvolvem a ciência e a tecnologia.

Muitas empresas e instituições já estão significativamente afinadas ou caminhando em direção a um modelo gerencial similar ao proposto neste artigo. A cada dia que passa, mais organizações incluem a expressão “desenvolvimento sustentável” na definição de suas missões. Alguns autores definem o início dessa nova era como “A Era do Capital Social e Humano”, em que o capital humano é definido como o potencial produtivo do conhecimento e ações de um indivíduo. Diversas empresas já perceberam que somente funcionários com conhecimentos, habilidades, motivações e condições adequadas podem conduzir a organização e promover a obtenção de vantagens competitivas nos mercados do século 21.

A somatória de todas as organizações e setores da sociedade compõe o capital social de uma nação. Define-se capital como o potencial produtivo resultante de relacionamentos fortes, boa vontade, confiança e esforço cooperativo entre os diversos setores sociais. Assim, quando funcionários, colaboradores e stakeholders de uma organização mantêm relacionamentos sinergéticos, social e ambientalmente responsáveis, a vantagem competitiva e o desenvolvimento sustentável são atingidos para o benefício de todos.

Considerações finais

A proposta definida e apresentada neste artigo – Eco-economia Tecnológica Cooperativa – pode ser uma contribuição para definir um novo caminho. Contudo, nenhum cientista, pesquisador ou futurólogo pode prever com exatidão que caminhos a humanidade trilhará no futuro. Atualmente, vivemos um momento complicado e difícil. As pressões sociais oriundas das enormes desigualdades de renda e escolaridade associadas aos atuais e crescentes níveis de consumo são os maiores perigos. O início do século 21 vem sendo marcado por uma sucessão de crises globais de natureza econômica e política. As dificuldades relativas à produção de alimentos, energia e abastecimento de água crescem a cada dia. Entretanto, com base na análise histórica, é certo concluir que nenhum sistema de organização social e política permanece inalterado para sempre. Portanto, uma das maiores certezas da humanidadepermanece a mesma – ela vive e sempre viverá períodos de incerteza e mudanças permanentes.

Há muito tempo que a ciência definiu dois infinitos: o infinitamente grande, que é o cosmo, e o infinitamente pequeno que é o universo subatômico. O jesuíta, filósofo e paleontólogo francês Pierre Teilhard de Chardin definiu um terceiro tipo: o infinitamente complexo, que é a vida.

A vida na Terra, e provavelmente em outros pontos do universo, tem uma pujança imensurável. 98% do DNA dos seres humanos – que compõem uma ínfima fração dos seres vivos – é igual ao dos chipanzés. Portanto, pode-se concluir que as diferenças do DNA das diversas raças e etnias humanas são quase insignificantes. Entretanto, em sua curta existência, a humanidade construiu uma diversidade cultural quase infinita.

Essa gigantesca diversidade cultural pode ser tanto um poderoso instrumento evolucionário de continuidade da humanidade, como um perigoso instrumento de desagregação, guerras e misérias. Tudo depende de como a sociedade humana lida com as diferenças. Os fatos históricos antigos e recentes falam por si. É possível constatar quantos avanços já surgiram por causa das contribuição das mais diversas nações. Ao mesmo tempo, pode-se constatar quanto sofrimento e miséria foram gerados pelas incompreensões, intransigências e preconceitos religiosos, culturais e políticos. Uma das possíveis leituras da história é que toda sociedade condenada à miséria, durante um período de mais de duas gerações, tem grande probabilidade de se torna vítima de sistemas políticos oficiais ou oficiosos. E, como sabemos, no fundo estes são sistemas totalitários ou tiranias: de esquerda, de direita, religiosa ou do crime.

No século 20, vimos o desenvolvimento e a implementação de produtos e serviços baseados nas leis físicas descobertas nos séculos 18 e 19. No século 21, a engenharia será caracterizada pelo desenvolvimento e implementação de produtos e serviços, a partir de leis bioquímicas e biofísicas descobertas no século 20.

A nanotecnologia, a bioengenharia e os biochips, os polímeros “inteligentes”, as próteses robóticas, os dispositivos de interface entre órgãos humanos como músculos, nervos e até mesmo o cérebro estão sendo desenvolvidos e estudados nos mais diversos centros de pesquisa. É certo afirmar que, em um universo de tempo menor que 20 anos, tudo isso estará à disposição da sociedade em geral. Os desenvolvimentos da engenharia genética, associados aos desenvolvimentos científicos e tecnológicos mencionados, e os avanços da medicina, possibilitarão uma ampliação significativa da expectativa e da qualidade da vida humana.

A humanidade chegou a um estágio de conhecimento científico que começa a interferir tanto no próprio processo evolucionário como no das demais espécies vivas. Assim, ampliamse os desafios a ser enfrentados pela própria humanidade na definição de princípios éticos e normas e de legislações norteadoras das atividades de pesquisa, econômicas e políticas.

Com o aumento da longevidade humana, a pressão nos sistemas previdenciários públicos ou privados aumentará. Também se intensificará a necessidade de encontrar soluções para a ocupação e o aproveitamento da massa de mão-de-obra que, mesmo envelhecida para os padrões atuais, pode ser capaz de contribuir com sua experiência. Portanto, torna-se cada vez maior a necessidade de que as atividades científicas e tecnológicas sejam multidisciplinares, para que sejam sintonizadas com as necessidades das atividades econômicas e políticas.

As universidades, os centros de pesquisa, as escolas e a imprensa têm tido um papel importantíssimo na divulgação, conscientização e geração de vetores de mudança de comportamento social e individual. Espera-se, portanto, que haja uma forte probabilidade de que as novas gerações tenham uma nova consciência e atuação diante das questões sociais e ambientais.

Como os avanços científicos e sociais sempre dão origem a avanços científicos e sociais, acredita-se que a humanidade, embora atualmente diante de desafios aparentemente intransponíveis, poderá encontrar soluções para manter o seu próprio desenvolvimento. Para serem consideradas sustentáveis, tais soluções devem ser capazes de mitigar os impactos ambientais e trazer benefícios para toda a humanidade. Em outras palavras, deverão democratizar os benefícios dos avanços científicos e tecnológicos. Embora esta afirmativa possa parecer utópica, é certo que, em um modelo de sociedade ambientalmente responsável e mais fraterno, as bases de continuidade do desenvolvimento e sobrevivência da humanidade serão mais sólidas.

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SERGIO LUIZ PEREIRA. Livre-Docente pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Professor dos programas de MBA da BSP-Business School São Paulo. Professor da Universidade de São Paulo (USP). Consultor em Eco-economia e Automação.
E-mail: sergio.pereira@prof.bsp.edu.br
E-mail: sergioluizpe@uol.com.br

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